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Destaque 05 · 4 de agosto de 2025

AMANDLA: história e cultura do Povo Preto como eixos centrais

Poder, Educação e História

AMANDLA — história e cultura do Povo Preto como eixos centrais

“Nosso objetivo é educativo, sim. Mas também é histórico. Também é político. É sobre fazer com que o nosso Povo compreenda e reivindique seu poder, sua memória e sua identidade.”

Saudações! Boas Vindas!! Este espaço é público e gratuito. A Campanha de Financiamento Coletivo da REDUAU apoia a continuidade deste trabalho. Se você chegou aqui é porque soma com nossa caminhada, então queremos agradecer por fortalecer cada passo. Você faz parte dessa construção de todas as maneiras possíveis. Obrigado por somar e edificar junto com a gente!

O Boletim REDUAU surge com a necessidade de falar por nós mesmos, tendo nossa história contada com nossa visão. O objetivo é dar destaque aos trabalhos que dialogam com a nossa construção. Sem mais demora, vamo ao destaque que separamos pra essa semana.

Na REDUAU, a gente sabe que nenhum projeto potente nasce do nada. Ele nasce da escuta e da força do nosso Povo. Nasce do compromisso com algo maior do que nós. É por isso que hoje, com o coração vibrando, destacamos a presença da AMANDLA em nosso Boletim. Se fosse preciso resumir em poucas palavras, talvez “poder, educação e história” fossem suficientes. Mas o que se constrói com a AMANDLA vai além das palavras — é vivência, reconstrução e chamada ancestral. Ela é necessidade coletiva transformada em ação. Uma resposta às urgências do nosso Povo. Uma construção feita com consciência histórica e compromisso com o futuro.

A educação que a AMANDLA oferece não se limita ao conteúdo. É didática com propósito e saber com sentido. História como cura. Não é “só um jogo” ou “só um livro infantil” que os irmãos oferecem. É ferramenta viva de transformação. O tipo de material que chega numa casa, numa escola, numa família e muda a atmosfera. Porque quem entra em contato se vê, se reconhece, se entende parte de algo muito maior.

Materiais educativos da AMANDLA

“Caminhamos conscientes de que muitas pessoas vieram antes de nós, abrindo caminhos, e que muitas outras seguem atuando ao nosso lado, diariamente, nesse mesmo propósito.”

Na prática, isso se revela em cada material, em cada proposta pedagógica, em cada jogo, livro ou atividade. Não se trata apenas de recursos didáticos, mas de experiências que provocam reflexão, reconhecimento e ação. Que ajudam nossas crianças, jovens e adultos a se olharem com outros olhos. Experiências que mostram, de forma concreta, que nosso saber tem valor, nossa história tem potência, e que nossa cultura é base para qualquer construção futura.

Muitas vezes, quando olham para esse tipo de trabalho, as pessoas tendem a minimizar. Chamam de “só um joguinho”, “só uma brincadeira educativa”, “só mais um livro”. Mas quem enxerga com profundidade entende que é justamente nesses pequenos instrumentos que estão as grandes chaves de transformação.

Ao falar de educação com história e cultura do Povo Preto como eixos centrais, estamos falando de um outro paradigma. Um paradigma em que educar é um ato de relembrar. Um processo de curar, reconstruir e projetar. Como dizem os próprios idealizadores: “Falar de história não é apenas compartilhar fatos; é afirmar identidades, projetar futuros, curar feridas. É construir um caminho nosso, com nossas referências, nossos valores e a força ancestral que nos acompanha.”

Fé na comunidade

Nesta sessão, deixamos o espaço aberto para que os convidados falem por si mesmos, como enxergam a própria caminhada. Com referência de Amos Wilson, Molefi Kete Asante, Steve Biko, Taisa Ferreira, Niní Kemba Náyò e Carla Souza, os Irmãos da AMANDLA têm preparado materiais com várias possibilidades. Vamos ver eles falando por eles mesmos...

“Hoje, temos diferentes linhas de materiais, todos concebidos com base na Afrocentricidade como filosofia, metodologia e prática pedagógica. A linha Kadi — cujo nome significa ‘carta’ na língua Swahili — é atualmente a maior em nosso acervo. Reúne jogos de cartas com diferentes dinâmicas, que vão desde jogos da memória até desafios de inferência e estratégias mais complexas. São seis jogos distintos: Kadi Realezas, Kadi Tecidos Africanos, Kadi Inferências, Kadi Desafios, Kadi Nguzo Saba e Kadi Samakaka.

Apesar das variações nas regras e nos conteúdos abordados, todos os jogos da linha Kadi compartilham um mesmo propósito: contribuir para que crianças, famílias e educadores reconheçam e afirmem a riqueza da história, da cultura, da estética e da filosofia africana como parte central de suas trajetórias.

Criamos também a linha Jengo, que remete à ideia de ‘construção’ em Swahili. São jogos de tabuleiro com dinâmica de agilidade, ideais para estimular a movimentação corporal, o raciocínio rápido e o espírito coletivo. Atualmente, essa linha conta com dois títulos: Jengo Personalidades Pretas e Jengo Países Africanos.

Para as crianças menores, desenvolvemos a linha Mbao, que significa ‘madeira’ em Swahili. São jogos produzidos em MDF, mais resistentes e duráveis, especialmente pensados para os primeiros anos da infância — período em que o contato físico, a repetição e a experiência sensorial têm papel fundamental no aprendizado.

E contamos ainda com a linha Kitabu — kitabu significa ‘livro’ em Swahili. Nela, reunimos obras didáticas e literárias, que vão desde materiais voltados à alfabetização, como África de A a Z (organizado a partir de sons e elementos africanos), até produções artísticas e literárias como o Livro de Colorir Realezas Africanas e o título em reedição sobre 15 tecidos africanos. Há também obras de caráter mais literário, como Jean: Igualzinho a Você, de Dlaman Kobina, nosso primeiro lançamento de literatura infantil, que apresenta Jean-Michel Basquiat ao público infantil; e Ayo em: Onde Está Minha Coroa?, de Kyas Imani, lançado este ano, que aborda o universo emocional de uma menina preta e conta com recursos inclusivos e lúdicos, como tradução em Libras, música e jogos, compondo um projeto sensível e inovador que já chegou a mais de uma centena de famílias pretas.

Dentre todos esses materiais, um dos mais queridos — tanto por crianças quanto por educadores e famílias — é o Kadi Realezas. Trata-se de um jogo de cartas com 54 peças que apresenta reis e rainhas africanos de diferentes períodos históricos e regiões do continente. Pode ser jogado como jogo da memória ou como jogo de trinca, em que os participantes devem reunir duas imagens de uma mesma realeza e uma terceira carta com sua biografia resumida.

Contudo, o Kadi Realezas vai além de sua mecânica lúdica. Ele é um instrumento de reconexão histórica e cultural. Cada carta representa uma oportunidade de romper com narrativas coloniais limitantes, permitindo que as crianças acessem figuras como Taharqa, Amanirenas, Moremi Ajasoro e Nímia Luqueni — líderes africanos cujas trajetórias envolvem áreas como política, espiritualidade, organização social, ciência e resistência militar.

O jogo promove o fortalecimento da autoestima, especialmente entre crianças pretas, ao apresentar uma história africana que não começa com a escravização, mas com a construção de impérios, saberes e civilizações. Ele valoriza princípios civilizatórios africanos como oralidade, coletividade, circularidade, respeito aos mais velhos e criatividade — todos integrados de forma pedagógica e afetiva ao ato de brincar.

A escolha de nomear a linha como Kadi também é um gesto político. Ao utilizar um termo da língua Swahili, reforçamos que as palavras têm poder, memória e território. Retomar nossas línguas é também retomar nossos marcos de mundo, nossas referências simbólicas e espirituais.

Dessa forma, ao segurar uma carta do Kadi Realezas, a criança não está apenas jogando: ela está reconstruindo seu imaginário, afirmando sua existência e reconhecendo sua ancestralidade como fonte de poder. Cada partida se torna uma experiência de aprendizagem que fortalece o pertencimento e a consciência de que temos raiz, temos memória e temos futuro.

Além disso, os jogos proporcionam momentos longe das telas, vivências em família e em comunidade que estimulam a criatividade. Por exemplo, uma mãe relatou que construiu uma civilização com blocos de montar junto com a filha e depois foram escolhendo juntas reis e rainhas para cada espaço da ‘cidade’. Interessante que essa mesma mãe relatou que a criança estava nervosa quando foi à dentista e pediu que, em vez dos desenhos animados, tocasse a música que acompanha o livro Ayo em: Onde Está Minha Coroa? Além de emocionantes, esses relatos demonstram como nosso trabalho tem chegado onde é de se chegar.

Esse trabalho é independente e sobrevive financeiramente das vendas dos materiais, mas futuramente, com um faturamento maior, pretendemos apoiar projetos de organizações autônomas pretas também.”

Jogo Kadi Realezas, da AMANDLA

A proposta pedagógica da AMANDLA é estratégica e feita com intencionalidade. Ela reconhece que nossa gente precisa, mais do que nunca, de ferramentas que fortaleçam a autoestima, o pensamento crítico e o senso de pertencimento. E tudo isso só se constrói a partir da valorização das nossas referências, das nossas histórias e da nossa cosmopercepção.

O objetivo da AMANDLA é fortalecer o povo preto em todas as idades. Seja na infância, na adolescência ou na fase adulta. Porque a desinformação, o apagamento e a negação da identidade nos atingem em diferentes momentos da vida. E, por isso, é urgente oferecer alternativas que possam reverter esse processo.

A educação proposta pela AMANDLA é política, formativa e coletiva. Ela não busca criar consumidores passivos de conteúdo. Ela quer provocar transformação. Quer que cada pessoa que entra em contato com seus materiais possa se reconhecer, se conectar e se reerguer.

Esse é o tipo de construção que queremos seguir fortalecendo. Porque não estamos sozinhos. Somos parte de uma grande rede de pessoas, projetos e sonhos que não aceitam o mundo como está. Por isso, celebrar a AMANDLA nesse Boletim é também celebrar a força das parcerias que nascem com propósito. É reconhecer o valor de cada passo dado em coletivo. E é afirmar, mais uma vez, que educar o nosso povo é parte da luta por liberdade.

Perguntas

Nosso objetivo vai além de divulgar trabalhos que admiramos. Queremos incentivar o autoconceito holístico: um olhar completo e amoroso sobre quem somos e o que manifestamos no mundo. Nesta edição, quem compartilha sua visão é Kyas Imani e Dlaman Kobina, idealizadores do projeto.

Se vocês pudessem definir o projeto em uma a três palavras, quais seriam?

Se a gente pudesse definir a AMANDLA em poucas palavras, seriam: Poder, Educação e História.

O que vocês gostariam que mais pessoas soubessem ou entendessem sobre esse projeto?

O que eu gostaria que as pessoas entendessem sobre a AMANDLA é que esse projeto não surgiu por acaso, nem é fruto de um desejo individual. Ele nasce de uma necessidade coletiva do nosso povo — e, ao mesmo tempo, é também uma construção coletiva. Caminhamos conscientes de que muitas pessoas vieram antes de nós, abrindo caminhos, e que muitas outras seguem atuando ao nosso lado, diariamente, nesse mesmo propósito. Quero que as pessoas compreendam a grandiosidade do que é trabalhar com o que a gente trabalha. Trabalhar com educação, com história, com a construção de poder para o nosso povo. Muitas vezes, isso é visto de forma superficial: como se fosse “só um joguinho”, “só uma brincadeira”, “só mais um livro infantil” ou “só uma informação histórica”. Mas é muito mais do que isso. É profundo. É amplo. É vital. É reviver tudo o que somos. Quando falamos de educação a partir de uma perspectiva preta e africana, falamos de reconstruir quem somos — a partir de quem já fomos, enfrentando e superando as tentativas históricas de apagamento. Falar de história não é apenas compartilhar fatos; é afirmar identidades, projetar futuros, curar feridas. É construir um caminho nosso, com nossas referências, nossos valores e a força ancestral que nos acompanha.

Qual o maior objetivo do trabalho?

Nosso maior objetivo com a AMANDLA é fortalecer o nosso Povo. Não apenas as crianças ou adolescentes, mas o povo preto como um todo — em todas as idades e fases da vida. E fazemos isso por meio de uma educação que tem, como eixos centrais, a nossa própria história e a nossa própria cultura. Uma educação comprometida com a didática, com a construção de sentido e com a possibilidade de transformar realidades. Essa didática que escolhemos é estratégica: ela visa potencializar o alcance, a reflexão e a construção da nossa identidade coletiva — enquanto povo preto, enquanto povo africano. O que propomos vai muito além de transmitir conteúdos: queremos criar caminhos de fortalecimento, de consciência histórica sobre quem realmente somos. Por isso, quando um jogo, um livro, um material nosso chega até uma escola, uma casa, uma criança, uma família, não é para que essa pessoa apenas consuma ou escute de forma passiva. Queremos provocar. Queremos que quem recebe esse material se reconheça, se conecte, se transforme — e perceba que faz parte de um coletivo que carrega potência, história e futuro. Nosso objetivo é educativo, sim. Mas também é histórico. Também é político. É sobre fazer com que o nosso povo compreenda e reivindique seu poder, sua memória e sua identidade.

A você, que apoia a campanha, deixamos nosso agradecimento mais profundo. É por causa de pessoas como você que conseguimos tirar do papel não apenas uma ideia, mas uma biblioteca viva. Com cada contribuição, você ajuda a nutrir esse sonho coletivo — e se torna parte essencial da nossa caminhada.

Campanha de Financiamento Coletivo

Esse trabalho foi feito com muito carinho e dedicação para nossa comunidade. Esperamos poder contribuir com a circulação de trabalhos potentes como o da família AMANDLA, com o máximo de respeito. Bora fazer a campanha circular e chegar em mais Irmãos e Irmãs que precisam conhecer. Com cada contribuição, você se torna parte essencial desse trabalho, ajudando a erguer um espaço que preserva e espalha as vozes, histórias e conhecimentos do continente afrikano e sua diáspora.

Obrigado. Até a próxima!!