Destaque 01 · 8 de julho de 2025
Omowale: novo EP de Rafiki narra a história de Malcolm X em 3 capítulos
Rap, ancestralidade e o centenário de Malcolm X

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O Boletim REDUAU surge com a necessidade de falar por nós mesmos, tendo nossa história contada com nossa visão. O objetivo é dar destaque aos trabalhos que dialogam com a nossa construção. Sem mais demora, vamo ao destaque que separamos pra essa semana.
Neste ano de 2025, celebramos o centenário de Malcolm X, e Rafiki fez um lançamento importante para a comunidade Afrikana Americana em Maio, mês de nascimento de Malcolm. Um trabalho consistente sobre a trajetória desse Herói se faz necessário. Rafiki transcendeu versos e rimas que narram a história de Malcolm em 3 capítulos.

Atuante da cultura hip-hop desde 2019, Rafiki sempre buscou gerar contribuições positivas para a população preta de sua cidade através de seus trabalhos e ações. Iniciou sua jornada como músico/rapper e hoje é também produtor musical e produtor cultural. A vertente Boombap acompanha o artista em sua liberdade criativa; mesmo experimentando outros gêneros e estéticas, a raiz da música preta ideológica ancestral se faz presente em todas as suas formas de expressão.
Traduzido do Yorubá como “Filho Renascido”, Omowale mergulha ideologicamente na autobiografia de uma das maiores personalidades do século XX. Aos 15 anos, Rafiki fez sua primeira leitura da Autobiografia de Malcolm X, leitura que serviu como proteção e crescimento de um adolescente preto em desenvolvimento. Já aos 19 anos, uma terceira leitura do livro leva Rafiki a transcrever cada detalhe em versos e instrumentais. Mesmo que tenhamos um narrador em 3ª pessoa não identificado, ainda é possível sentir na voz de quem canta o peso do impacto que o exemplo de Malcolm trouxe.

Sua discografia inclui singles como “Perseguição” e “Mingus”, e EPs como “3 Pedidos Pretos” e “Afrosurto”. Rafiki também participou do disco “Lo-fis para Churrasco Vol. 2” (2021) e lançou o videoclipe “Vale dos Homens Pretos” (2023).
Rafiki (rapper pelotense de 21 anos) não só compõe como também produz todas as faixas de sua obra, impondo estética refinada no contexto denso do Boom Bap que se mistura com Jazz/Soul em prol da comunicatividade musical que o Rap proporciona: se pretos e pretas merecem uma grande referência como Malcolm X, então podem obter esse conhecimento através de músicas também. “Little”, “Detroit Red” e “Omowale” são os 3 capítulos do livro musical que o artista propõe.
Ouvir o álbum completo no Spotify
Mais sobre Rafiki e Omowale
Nós trocamos uma ideia com Rafiki pra entender um pouco mais o trabalho, e a gente ficou muito feliz em ver que o Hip Hop tá vivo nas mãos de jovens talentosos e com disposição pra incendiar o mundo utilizando o Som como ferramenta de transformação e educação. O trabalho traz em si toda uma potência desde a construção. Se liga só no que Rafiki respondeu sobre nossas “perguntas-chave”.
Rafiki, se você pudesse definir seu projeto em uma a três palavras, quais seriam?
Renascimento existencial. A transformação interna divina que Malcolm X alcança em sua trajetória vai muito além do abandono de maus hábitos e criação de vínculo com o Nacionalismo Preto; no geral nós nos limitamos muito nas barreiras que já existem e que nós criamos, um sistema de mentalidade escravista que odeia os pretos bloqueia nossos dons e potências que são conexões com o divino. Malcolm tinha infinitas correntes presas a ele antes de ser preso: auto-ódio, ignorância, desonestidade, traumas, vícios, todo tipo de limitação sobre si de maneira que jamais imaginaria a si mesmo como ser humano valoroso. Em um processo de reconexão consigo mesmo ainda enquanto detento, ele vai de fantasma na terra pra orixá em movimento. É muito difícil pra mim colocar em palavras o que significa pra um homem preto sair do fundo de um poço de destruição direto pra linha de frente de um povo inteiro, e isso é sobre a absolutez. A absolutez de ter uma tomada de consciência tão gigantesca a ponto de não enxergar nada além da própria capacidade de ação, sem distrações, apenas uma direção e um objetivo. Malcolm conseguiu enxergar em si o que todos nós temos e não vemos; ainda estamos muito machucados.
O que você gostaria que mais pessoas soubessem ou entendessem sobre este projeto?
Eu quero que todo preto veja em Malcolm X a si mesmo. O trabalho é uma contação de história, não uma dissertação sobre o Nacionalismo. É um livro que fiz pra que um ancestral crucial seja exaltado como exemplo pras nossas crianças e mais velhos, homens e mulheres afrikanos em qualquer lugar. Existe a minha questão pessoal com o trabalho: eu quis entregar toda a técnica que me era possível pra que a espiritualidade preparasse o alcance disso tudo. Eu trabalho com Rap e Rap é uma responsabilidade pra mim. Gostaria que as pessoas percebessem a maestria do projeto, mas isso é menos importante do que a mensagem.
Campanha de Financiamento Coletivo
Esse trabalho foi feito com muito carinho e dedicação para nossa comunidade. Esperamos poder contribuir com a circulação de trabalhos potentes como o do Rafiki, com o máximo de respeito. Caso ainda não seja apoiador(a), participe da Campanha de Financiamento Coletivo da Biblioteca REDUAU e ajude a transformar este sonho em realidade! Com o apoio da comunidade, estamos criando um espaço dedicado ao estudo e valorização dos saberes Afrikano-Centrados que será referência para todos(as). Caso já apoie a REDUAU, bora fazer a campanha circular e chegar em mais Irmãos e Irmãs que precisam conhecer. É mais do que uma biblioteca; é um lar de memórias, resistência e ancestralidade.
Obrigado. Até a próxima!!