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Reflexão 01 · 13 de agosto de 2026

Serviço Social Afrocentrado: comunidade, cultura e autodeterminação

Mekada Graham, os Nguzo Saba e as conexões entre Grã-Bretanha, Estados Unidos e Brasil

Mulher negra com turbante colorido olhando para o horizonte com fundo de savana e grupo de pessoas conversando. Título: Serviço Social Afrocentrado.

A natureza hegemônica do conhecimento do serviço social propaga a crença de que os preceitos eurocêntricos sejam básicos e universais para a análise dos problemas sociais. Além disso, esses preceitos são apresentados como livres das imposições culturais que afetam o teórico e a teorização - sugerindo assim objetividade na compreensão do comportamento humano. Esse é o arcabouço em que operam as fontes ocultas da opressão cultural no serviço social. A opressão cultural suprime as experiências, os valores, as ideias e as interpretações das comunidades negras sobre as causas e soluções dos problemas sociais (Schiele, 2000).

Nesse contexto, as teorias e perspectivas socioculturais das comunidades negras são marginalizadas e subjugadas.

Reflexão central: Continuidades Epistemológicas

Pesquisadores negros no continente africano e por toda a diaspora vêm detalhando a existência de filosofias e visões de mundo, valores culturais, narrativas e experiências africanas que oferecem padrões culturais distintos e reconhecíveis ao longo do tempo (Asante, 1987, 1988; Akbar, 1984). Esses pressupostos filosóficos - formas de conhecer e compreender o mundo - sobreviveram ao desenraizamento físico do povo africano por meio da escravidão e da imposição do colonialismo, permanecendo como uma parte essencial de seu ethos.

Os paradigmas afrocentrados se baseiam em visões de mundo afro-centradas que refletem filosofias sociais da África antiga e tradicional para interpretar uma escola de pensamento distinta africana. Muitos intelectuais têm afirmado que essa abordagem não apenas contribui para nossa compreensão da existência humana isenta das perspectivas filosóficas eurocêntricas, mas também ajuda a explorar as diversas realidades humanas (Akbar, 1984; Schiele, 2000; Graham, 2002a).

As visões de mundo afrocentradas reconciliam várias escolas de pensamento derivadas das civilizações clássicas africanas como a linha base para concepções dos seres humanos e do universo. A África é concebida como a fonte dos valores, filosofias, princípios históricos, padrões culturais e sistemas de crença que orientam as identidades culturais africanas. O campo da filosofia considera questões sobre a natureza da existência humana. A natureza da existência humana sustenta a estrutura e a ordenação dos princípios filosóficos para destilar a essência dos seres humanos. Essa atividade reflexiva resume e concentra a interação da razão e da experiência sensorial para moldar epistemologias.

Quem tem o poder de definir o que é conhecimento e quais formas de compreender o mundo são consideradas legítimas?

Maat: Ética e Ordem Comunitária

Dentro dessa reflexão, incluímos Maat como parte de uma tradição filosófica africana que articula dimensões como verdade, justiça, equilíbrio, reciprocidade, responsabilidade e ordem comunitária. Maat ajuda a compreender uma visão de mundo na qual indivíduo, comunidade, ética e conhecimento não aparecem completamente separados.

Se as perspectivas afrocentradas valorizam coletividade, interdependência e responsabilidade comunitária, Maat é uma das referências históricas que ajudam a visualizar essa lógica. Reconhecemos a diversidade do continente africano, mas identificamos padrões culturais que permitem estabelecer diálogos entre diferentes experiências afro-diaspóricas.

Afrocentricidade e Agência

A Afrocentricidade propõe um reposicionamento do sujeito africano e afro-diaspórico dentro da produção do conhecimento. Não a apresentamos como simples oposição ao pensamento europeu, mas como uma perspectiva que recupera agência, localização histórica e referências culturais africanas para interpretar experiências humanas.

Dialogamos especialmente com as contribuições de Mekada Graham, Molefi Kete Asante, Na'im Akbar e Jerome Schiele para fundamentar essa busca por um conhecimento que respeite nossa localização e história.

Conexão com o Brasil: Do Objeto ao Sujeito

Ao trazer essa reflexão para a realidade brasileira, questionamos o que muda quando populações negras deixam de aparecer apenas como objetos de estudo, diagnóstico ou intervenção e passam a ser reconhecidas também como produtoras de conhecimento.

Quilombos, terreiros, movimentos negros e intelectualidades negras são espaços capazes de produzir interpretações fundamentais sobre sociedade, território, comunidade e cuidado. Colocar África no centro da análise não significa afastar-se do Brasil; significa ampliar os referenciais utilizados para compreendê-lo.

Princípios Nguzo Saba

Graham recupera os Nguzo Saba como conjunto de princípios capazes de orientar a prática e a organização comunitária. Abaixo, a imagem que já contém os dados detalhados desses princípios:

Quadro explicativo dos sete princípios do Nguzo Saba: Umoja (unidade), Kujichagulia (autodeterminação), Ujima (trabalho coletivo), Ujamaa (economia cooperativa), Nia (propósito), Kuumba (criatividade) e Imani (fé).

Fechamento: Descolonizar o Conhecimento

Concluímos que descolonizar o conhecimento não é apenas acrescentar autores negros a uma estrutura inalterada. Significa questionar quem produz teoria e quais concepções de humanidade orientam nossas práticas. O trabalho da REDUAU reforça que estudar filosofias africanas é reconhecer tradições capazes de oferecer outras formas de interpretar o presente e pensar possibilidades de transformação.

Leia. Pesquise. Estude.

Fonte de estudo

GRAHAM, Mekada. “O Serviço Social Afrocentrado na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos”. In: NASCIMENTO, Elisa Larkin (Org.). Afrocentricidade: Uma Abordagem Epistemológica Inovadora. São Paulo: Selo Negro, 2009.

Capa do livro Afrocentricidade: Uma Abordagem Epistemológica Inovadora

Afrocentricidade: Uma Abordagem Epistemológica Inovadora

Elisa Larkin Nascimento (org.)

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