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Boletim Aberto · Reflexão 01 · 12 de agosto de 2026

Serviço Social Afrocentrado: comunidade, cultura e autodeterminação

Mekada Graham, os Nguzo Saba e as conexões entre Grã-Bretanha, Estados Unidos e Brasil

Esta é a primeira reflexão aberta do Boletim REDUAU. Diferente das edições exclusivas, ela pode ser lida por qualquer pessoa, sem senha. O ponto de partida é o capítulo de Mekada Graham sobre o Serviço Social Afrocentrado na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, lido aqui como material de estudo — não como receita a ser aplicada.

Partir do coletivo

A proposta de Graham desloca o eixo da leitura sobre o sujeito. Em vez de tomar a pessoa atendida como uma unidade isolada, cuja trajetória se explicaria por escolhas individuais, ela recoloca esse sujeito dentro de uma rede: família, comunidade, cultura, memória, espiritualidade e condições históricas concretas de existência.

O serviço social afrocentrado enfatiza a coletividade, a interdependência e a “força espiritual” como a base de sua teoria e prática.

Não se trata de negar a singularidade de cada pessoa nem de dissolver o indivíduo no grupo. Trata-se de reconhecer que a forma dominante de intervenção — centrada no diagnóstico individual, no caso, no prontuário — tende a apagar as relações que sustentam ou fragilizam alguém. Quando a rede desaparece do olhar profissional, sobra apenas a pessoa e sua suposta falha. E é justamente aí que o racismo opera com mais conforto: transformado em problema de comportamento.

Falar em interdependência também não é romantizar comunidade. Comunidades têm conflito, hierarquia interna, disputa de poder e exaustão. Partir do coletivo significa levar a sério essas tensões, e não idealizá-las.

Conhecimento cultural como parte do processo de ajuda

Em muitas formações profissionais, cultura aparece como um adendo: um módulo, uma sensibilização, uma orientação genérica sobre respeitar diferenças. Na leitura de Graham, o conhecimento cultural não é acessório nem decoração — ele participa diretamente do processo de mudança.

Saber de onde vêm as referências de uma pessoa, quais linguagens organizam sua noção de cuidado, o que ela reconhece como autoridade, como sua família lida com adoecimento, luto, criação de crianças e espiritualidade: isso não é curiosidade etnográfica. É informação prática. Sem ela, a intervenção corre o risco de propor soluções que a pessoa não reconhece como suas — e, portanto, não sustenta.

O deslocamento é importante: cultura deixa de ser barreira a ser contornada e passa a ser recurso disponível na construção de autonomia. Autonomia, nesse sentido, não é o mesmo que se virar sozinho. É poder decidir com base em referências próprias.

Nguzo Saba como princípios de prática

Graham recupera os Nguzo Saba como conjunto de princípios capazes de orientar prática profissional e organização comunitária. Abaixo, uma leitura editorial da REDUAU — paráfrase nossa, voltada para o trabalho coletivo:

Nguzo Saba — sete princípios

  • Umojaunidade

    Construir unidade sem apagar divergências: acordo suficiente para agir junto, espaço suficiente para discordar.

  • Kujichaguliaautodeterminação

    Recuperar o direito de definir, nomear e representar a nós mesmos, em vez de aceitar categorias criadas por terceiros.

  • Ujimatrabalho e responsabilidade coletivos

    Tratar problemas coletivos como responsabilidade compartilhada — sem, com isso, retirar a responsabilidade do Estado.

  • Ujamaaeconomia cooperativa

    Pensar circulação de recursos, cooperação e sustentação material de iniciativas próprias ao longo do tempo.

  • Niapropósito

    Orientar ação individual e coletiva por propósitos construídos socialmente, e não apenas por urgência ou sobrevivência.

  • Kuumbacriatividade

    Criar condições para entregar à comunidade estruturas melhores do que as que recebemos.

  • Imani

    Fortalecer confiança crítica nas pessoas, nos saberes acumulados e na capacidade organizativa da comunidade.

Nguzo Saba — princípios sistematizados por Maulana Karenga. Quadro da obra consultada baseado em Karenga, 1997b.

Lidos assim, os princípios não funcionam como mandamentos. Funcionam como critérios de avaliação: é possível perguntar, diante de qualquer projeto ou serviço, se ele produz unidade, se amplia autodeterminação, se distribui responsabilidade, se sustenta materialmente o que propõe.

Conexões com o Brasil

A experiência descrita por Graham nasce em contextos específicos. Na Grã-Bretanha, o debate se organiza em torno de comunidades africanas e caribenhas formadas em larga medida por migração do século XX e pela relação direta com o passado colonial britânico. Nos Estados Unidos, a formulação afrocentrada se apoia em uma tradição longa de instituições negras próprias — igrejas, universidades, imprensa, organizações comunitárias — e em um sistema de segregação que foi legal e explícito.

O Brasil tem outra história. A escravização colonial durou séculos e terminou sem reparação, sem terra, sem indenização e sem política de incorporação. A desigualdade racial se reproduziu por meios menos codificados em lei e mais difusos: mercado de trabalho, moradia, educação, polícia. E, sobre tudo isso, operou por décadas um discurso de harmonia racial que dificultou nomear o racismo como estrutura. Importar diretamente um modelo britânico ou estadunidense seria repetir o erro que a própria afrocentricidade critica: aplicar categorias externas a uma realidade que não as produziu.

Há, então, uma pergunta que atravessa qualquer instituição por aqui: quando uma pessoa negra chega com algo classificado como problema individual, o que existe antes e ao redor desse indivíduo? Território e o que ele oferece ou nega. Condições materiais de vida e trabalho. Racismo cotidiano e institucional. Vínculos comunitários que sustentam ou que já se romperam. Referências culturais e religiosas. Acesso — ou barreira — a direitos que existem no papel. E uma história que começou muito antes daquele atendimento.

Isso não é uma acusação ao Serviço Social brasileiro, campo que produziu crítica consistente sobre desigualdade e Estado. É uma proposta de ampliar perguntas e referências disponíveis — inclusive as que vêm de fora do circuito habitual de formação.

Atender pessoas negras não é o mesmo que produzir uma prática afrocentrada

Um serviço pode atender majoritariamente pessoas negras e ainda assim operar com um quadro teórico que as trata apenas como população vulnerável. Nesse caso, a presença negra aparece como demanda, nunca como pensamento.

Uma prática afrocentrada exige outra coisa: reconhecer agência, isto é, capacidade de decidir e agir; reconhecer centralidade histórica e cultural, isto é, que aquelas pessoas são sujeitos de uma história própria e não margem da história de outro; reconhecer capacidade de interpretação, isto é, que elas têm análise sobre a própria condição; e reconhecer autodeterminação, isto é, o direito de definir prioridades. Sem isso, muda o público atendido, mas não muda o lugar que ele ocupa na relação.

Entre assistência e autodeterminação

Existe uma diferença entre garantir direitos e administrar permanentemente a vulnerabilidade. Serviços que se estabilizam na gestão da carência produzem dependência e, com o tempo, passam a precisar da carência para existir. A crítica afrocentrada aponta para outro horizonte: fortalecer capacidade organizativa, não apenas distribuir atendimento.

Ao mesmo tempo, é preciso dizer com clareza: responsabilidade comunitária não substitui política pública. Nenhuma rede de solidariedade repõe saneamento, escola, saúde, moradia ou renda. Quando o discurso de autonomia é usado para justificar ausência do Estado, ele deixa de ser autodeterminação e vira abandono com nome bonito.

Umoja não é ausência de divergência. Ujima não retira a responsabilidade do Estado. Ujamaa não ignora as estruturas econômicas. Kujichagulia recupera o direito de nos definir.

Fechamento

Talvez o uso mais honesto dos Nguzo Saba não seja o de respostas prontas, e sim o de perguntas persistentes: como uma comunidade permanece comunidade quando tudo empurra para a dispersão? Como constrói recursos próprios sem isolar-se? Como define propósitos que não sejam apenas reação à violência? Como preserva capacidade de ação quando a urgência consome o tempo?

Essas perguntas não se respondem em uma publicação. Elas se respondem em prática, ao longo do tempo, com estudo.

Leia. Pesquise. Estude.

Fonte de estudo

GRAHAM, Mekada. “O Serviço Social Afrocentrado na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos”. In: Afrocentricidade: uma abordagem epistemológica inovadora.

Esta publicação é uma reflexão da REDUAU a partir da leitura da obra. As conexões com o Brasil são elaboração editorial da Biblioteca e não constam do texto de referência.